Cultura

Fé celebrada com dois dias de festa do Homem do Mar na Nazaré

O Dia do Homem do Mar foi celebrado pela Nazaré com dois dias de festa (4 e 5 de maio), com a realização das procissões em terra e no mar.

As comemorações tiveram início com a procissão em terra, do Centro Cultural da Nazaré até à Capela de N. S. dos Aflitos, acompanhada pela Filarmónica Maiorguense e Fanfarra dos Bombeiros Voluntários da Nazaré (4 de maio). No domingo, cumpriu-se a procissão em mar com as tradicionais três voltas à enseada das imagens e embarcações enfeitadas a rigor para a ocasião.

Doze imagens, entre as quais três vindas de Peniche, com a participação das embarcações Mestre Comboio, Rio Minho e Afrodite, foram transportadas nas procissões. Mais de 2 mil unidades de flores enfeitaram os andores, num trabalho executado quase em exclusivo por mulheres, realizado horas antes da procissão.

“Eles têm outras tarefas. Estão nos barcos, a enfeitá-los, para irem ao mar”, explica uma das mulheres que participou nos preparativos e na festa final.

Esta é uma manifestação de fé importante para toda a comunidade, na sua maioria com forte ligação ao mar e às pescas.

“Realiza-se no primeiro fim de semana de maio. Temos muito gosto em organizar o evento e ver toda esta envolvência da comunidade”, explica Joaquim Remígio, Presidente do Apostolado do Mar, a entidade que, juntamente com a Paróquia, e a colaboração de várias entidades, entre as quais a Câmara, organizam estas procissões.

Sobre a importância desta manifestação de fé, que puxa pela comunidade local, mas também por muitos visitantes, Joaquim Piló, vice-presidente do Apostolado do Mar, explica que esta é uma “coisa do homem do mar. É uma fé que nos move e uma procissão que fazemos para nos dar alento para o nosso dia a dia no mar”.

“E no final das três voltas à enseada, como sempre fizemos na procissão marítima, sentimo-nos mais reconfortados, mais seguros a ir para o mar, no dia seguinte”, acrescenta Joaquim Remígio, de 75 anos, grande parte deles dedicados à pesca no país, e outros tantos emigrado.

Paula Graça, uma das mulheres que esteve toda a manhã de volta das flores e da composição de cores para enfeitar o andor que lhe foi atribuído por sorteio, envolve-se nesta festa com tano afinco quanto a fé que tem na religião que professa. 

Conheceu o marido, pescador de profissão, em plena adolescência. A fé é um dos motores da sua vida. Ajudou-a a ultrapassar muitas voltas de mar e angustias. “Não é uma vida nada fácil. É uma vida de risco. Eles têm que se sujeitar a dias maus e muitas vezes regressam sem ganhar para o pão”, lamenta, em lágrimas.

Sobre os homens, ausentes destes preparos dos andores, que começou bem cedo na manhã de sábado, Paula diz que estão encarregues de outros trabalhos. “Estão a preparar os barcos!”, mas a fé é igual ou até maior que a destas mulheres.

“Quando calha um Santo para transportar a um pescador é como se lhe tivesse calhado o totoloto em sorte”, diz Paula, para explicar o grande respeito que todos sentem pelos seus santos protetores e pela segurança que estes lhes transmitem quando saem para o mar.

Paula Graça tem observado a evolução da vida moderna. Gosta de ver os novos negócios (associados ao turismo de surf) a crescer e a desenvolver a terra, mas sobre o mar e a pesca fala de “dureza de vida” e regista que “há cada vez menos gente nestas embarcações. Muitas estão paradas por falta de gente!”, alerta, justificando com a “falta de incentivos para levar mais jovens para o mar” e enfrentar uma profissão de elevado desgaste e sem garantias de retorno. 

“É muito bom chegar ao fim do mês com dinheiro certinho. No mar não é assim”.

Entre flores, pensamentos, e a fé, e já muito próximos da hora de saída da primeira procissão, chega Carlos Bragaia, um jovem pescador, responsável pela embarcação “O Triunfador”.

O gosto pelo mar ainda supera as dificuldades que todos sentem nesta profissão, mas admite que “não é fácil continuar” quando, na maioria das vezes, não há garantia de fazer dinheiro.

Ainda sem preocupações de retorno financeiro da profissão, Afonso, de 6 anos, de uma família de pescadores, já sabe o que quer ser quando for crescido: “Pescador!”. Porquê Afonso? “Gosto da vida de pescador”, responde sem hesitar.

A realidade local evidencia o decréscimo de registos de pescadores na Nazaré. Serão perto de 100 registados, e a atividade, dizem alguns, sobrevive também graças à participação dos reformados.
A fé é a última a morrer, e esta manifestação religiosa de dois dias é, também, para muitos, uma oportunidade de renovar a sua sobre a atividade, o futuro e as perspetivas de futuro.

O evento (procissões e festa do Homem do Mar) é um tributo aos pescadores, à pesca, aos seus contributos para a economia e identidade local. Trata-se de uma festa popular de grande relevância, e que cumpre uma tradição religiosa da comunidade piscatória, a de pedir proteção e boa faina aos seus santos padroeiros.

Paolo Lagatta, Padre da Nazaré, diz que se trata de uma “festa muito importante para toda a comunidade e que já se realiza há muitos anos. É, sem dúvida, um momento muito importante para esta gente do mar”.
“Nasce neles uma devoção natural em volta das imagens, dos Santos, e em especial a Nossa Senhora da Nazaré. É um momento público para aferirmos a sua fé, e a igreja acompanha-os nas suas tarefas e nas dificuldades ao longo do ano”, refere.

A procissão marítima é sempre o ponto alto das celebrações, com as tradições 3 voltas à enseada, a bênção das embarcações, dos homens e do mar onde vão recolher, durante o ano, o seu sustento. 

O Presidente de Câmara da Nazaré, Walter Chicharro, descendente de gente do mar, vê a Festa do Homem do Mar como “um dos momentos mais marcantes da vida do concelho”. 

“É um momento de afirmação da comunidade piscatória e ao mesmo tempo de celebração destes homens do mar, verdadeiros heróis e país de família que foram sempre parte importantíssima da economia local. Como filho, neto, bisneto e tetraneto de pescadores e peixeiras, enche-me a alma participar nesta festa de exaltação e homenagem ao Homem do Mar. Por essa razão a Câmara estará sempre disponível para o apoio a esta festa marcante e marco da nossa história”

Participaram nas celebrações deste ano, os Ranchos Tá-Mar e Grupo Etnográfico Danças e Cantares da Nazaré; Fanfarra dos Bombeiros Voluntários da Nazaré; Escuteiros de Famalicão – Agrupamento 924, Banda Filarmónica da Maiorga, Armadores de Pesca de Peniche e uma delegação da Associação de Arte Xávega de Capbreton (Vila geminada com a Nazaré), La Capbretonnaise (association la pinasse capbretonnaise).